quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

ONDE NASCE A AGRESSÃO?

      Um Ensaio Sobre as Possíveis Origens da Hostilidade
      Por: William Fernandes
 Antes de tudo é importante entendermos que o termo agressão tanto se relaciona diretamente com a violência quanto, de forma mais sutil, sugere medidas drásticas ou comportamentos obstinados como os de um líder religioso fundamentalista ou de um vendedor em busca do sucesso. Embora, segundo a Psicologia Social (David Meyers, 1999) o primeiro seja agressão e o segundo apenas uma afirmação, não podemos ignorar o fato de que em ambos os casos um indivíduo ou grupo direciona uma ofensiva a outra pessoa ou grupo; ou seja, em ambos encontramos a busca pela destruição do outro.
            Para ajudar essa compreensão os psicólogos decidiram agrupar as relações agressivas  em dois grupos:
            1 – Agressão Hostil: Seria aquela que surge da raiva e tem como intensão machucar, ferir, destruir;
            2 – Agressão Instrumental: É descrita como sendo “(...) aquela que visa fazer o mal apenas como um meio de alcançar um outro fim.” (Meyers, 1999, Pág. 208).
            O que podemos notar é que essa classificação é relativa. Vamos pegar o exemplo do pastor evangélico que incita seus fiéis a odiarem os praticantes de religiões afro-brasileiras e homossexuais; o fato dessa atitude promover ataques violentos, causando a destruição criminosa de terreiros de umbanda e espancamento e mesmo morte de centenas de gays não faz com que seus seguidores vejam esse discurso de ódio como sendo ruim: “É a vontade de deus”. Genocídios praticados pelos Estado Unidos da América  são chamados de “tentativas de paz” pelos nacionalistas e movimentos que promovem a institucionalização da tortura levam nomes cheios de eufemismos como a recente  “Marcha da família com deus”. Por essa ótica, a do grupo interno,  poderíamos dizer que a Agressão Instrumental é boa, pois o objetivo não seria a morte de ninguém e sim agradar a um deus, promover a ordem, defender o país; e a Hostil, essa que vemos no trânsito, nos assaltos e nas torcidas organizadas seria ruim por se servir apenas à causar o mal ao outro. Contudo, se um homem é visto espancando outro, e estes brigam por uma discussão sobre futebol que segundo essa classificação seria uma Agressão Hostil,  do ponto de vista de um torcedor violento agredir o torcedor do time rival seria apenas uma forma de promover a força e o sucesso do seu time; da mesma forma  um assaltante pode alegar que  apenas está compensado a injusta distribuição de riqueza do país. Ou seja, a agressão será sempre Instrumental, pois sempre visará algum tipo de satisfação e sempre será Hostil, pois visará sempre a destruição do outro.           

Algumas Teorias Sobre as Origens da Agressão
 Hereditariedade
            A Psiquiatria e a Psicologia Comportamental se apoiam na relação do homem como espécie em relação à outros animais para explicar a sua teoria da agressão.  A afirmação recorrente é: “Com a idade, as influências genéticas sobre a agressividade aumentam, e a influência familiar diminui (Miles & Carey, 1997).
Segundo essa teoria o comportamento agressivo é de origem genética, ou seja, país agressivos gerariam filhos agressivos. Para essa teoria usam   em testes com camundongos em laboratórios (Kirsti Lagerpetz, 1979, Apu  Meyers, 2002, pg. 209). Separaram camundongos agressivos dos demais e mantiveram a reprodução por 26 gerações. Conseguiram uma prole de camundongos ferozes.
            Ainda no âmbito laboratorial a influência genética sob a agressão foi estuda observando animais criados para briga; como cães e galos.
            Fora do laboratório, mas muita mais timidamente, observou-se o desenvolvimentos de humanos gêmeos (Raine, 1993). Gêmeos idênticos filhos de criminosos apresentam 5 vezes mais registros de criminais do que gêmeos fraternos.
Estes testes foram apresentados e reconhecidos pela American Psychological Association.

 Influências Bioquímicas
            Na tentativa de explicar o comportamento agressivo estudiosos do comportamento e organismo humano apontam para o desequilíbrio químico como o maior responsável para esse fato. Usam para isso resultados de laboratório e boletins de ocorrência policial (Bushman & Cooper, 19902)
            Em laboratórios observaram que pessoas alcoolizadas aplicam choques mais violentas em experimentos do que os não alcoolizados.  (Abbey e outros, 1996, Apu  Meyers, 2002, pg. 209). Fora do laboratório observaram, para validar essa teoria, que 50% dos crimes mais violentos como estupro e homicídio, são cometido por pessoas embriagadas. Afirmam que um  homem que agride sua esposa depois de abandonar o alcoolismo, abandona também o comportamento violento (Murphy & O´Farrel, Apu  Meyers, 2002, pg. 209).
            Além do álcool os hormônios seriam também responsáveis pela origem dos comportamentos agressivos no ser humano. O Homem teria comportamentos mais agressivos que as mulheres por serem regidos pela Testosterona (Dabbs & outros, Apu  Meyers, 2002, pg. 209). Dessa forma os homens ficariam menos agressivos depois dos 25 anos, pois o nível de testosterona estariam mais baixos.
            O baixo nível de serotonina, o neurotransmissor que costuma ser baixo nas pessoas deprimidas, é considerado um outro responsável pelo comportamento agressivo. Pessoas situadas em baixa escala socioeconômica também tendem a ter baixos níveis de serotonina (Bernhardt, 1997, Apu  Meyers, 2002, pg. 2010). Segundo os Psicólogos Evolucionistas essa seria a forma que a natureza usa para prepara-los para uma defesa e lidar com situações de risco. (Meyers, pg. 210).

Influências Neurológicas
Essa frágil teoria se baseia completamente em estudos  experimentos realizados em laboratórios. Segundo Meyers (2002), pesquisadores ativaram áreas do cérebros supostamente responsáveis pelo comportamento agressivo e, quando estimuladas, causavam uma reação agressiva no animal experimentado.
            Em humanos testaram com a colocação de eletrodos nas áreas do cérebros referidas e ativa-los, mesmo sem causar dor, causavam comportamentos violentos (Moyer, 1976, Apu  Meyers, 2002, pg. 208).
            Embora fique claro que manipulações neurológicas, desequilíbrio hormonal e mesmo influências genéticas  possam influenciar o comportamento hostil não fica evidente serem estas ou mesmo alguma destas, a origem da agressão.
            Algumas dessas teorias, de fato, provam a relação de seus experimentos e aumento da agressividade ou, no caso da Teoria da Hereditariedade, que filhos

Freud e as Origens da Agressão
            É simples: “Acho que se deve levar em conta o fato de estarem presentes em todos os homens tendências destrutivas e, portanto, antissociais e anticulturais, e que, num grande número de pessoas, essas tendências são suficientemente fortes para determinar o comportamento delas na sociedade humana.” (Freud, 1928, P. 2).
            Freud nos apresenta um homem que se circunscreve socialmente e consigo mesmo segundo pulsões inconscientes que estão sempre buscando um alívio, um prazer imediato nunca satisfeito. “Todavia, observemos que o estado de tensão desprazeroso e penoso não é outra coisa senão a chama vital de nossa atividade mental; desprazer e tensão permanecem para sempre sinônimos de vida.” (Freud, 1928, P. 20, Parágrafo 1º).

Mas de onde vem essa necessidade de encontrar o prazer que  gera esse desprazer? Freud nos fala sobre o instinto. Sem interesse em discorrer aqui detalhadamente sobre o aparelho psíquico e o instinto podemos citar apenas que existe, segundo Freud, a Pulsão de Vida e a Pulsão de Morte. Ambos buscam o prazer ou o encontro de um estado anterior; a primeira é descrita por Freud como “ (...) a ligação libidinal, isto é, o atamento dos laços, por intermédio da libido, entre nosso psiquismo, nosso corpo, os seres e as coisas” (Idem, P. 60, Parágrafo 1º)., a segunda “(...) a tendência do ser vivo a encontrar a calma da morte, o repouso e o silêncio ...” (Idem, P. 60, Parágrafo 1º).

Ou seja, o homem está sempre na luta contra este estado de desprazer. Mas de que maneira esse desprazer gera o comportamento agressivo? Ora, nossos relacionamentos com os  semelhantes estão sempre  perturbados pela existência de desejos agressivos em nós que supomos haver neles; “A existência da inclinação para a agressão que podemos detectar em nós mesmos e supor com justiça que ela está presente nos outros, constitui o fator que perturba nossos relacionamentos com o nosso próximo e força a civilização a um tão elevado de energia” (Freud, 1930, P. 35, Parágrafo 2º).

Segundo Freud não há como conter completamente os instintos agressivos do homem. O que se busca é um controle civilizatório que tenta controlar as manifestações agressivas; “A civilização tem de utilizar esforços supremos a fim de estabelecer limites para os instintos agressivos do homem e manter suas manifestações sob controle por formações psíquicas reativas” (Freud, 1930, P. 45, Parágrafo 3º). Talvez isso explique a constante formação de grupos ideológicos que dominam o pensamento de nações; a exemplo temos a religião que tem se auto estabelecida como o maior instrumento para conter “o mal” que há no homem.

Freud mantém a religião no campo das ilusões; necessária para o homem primitivo na busca por dominar as forças da natureza; confere à ela grande parte do mal estar da civilização: “(...) o homem transforma as forças da natureza não simplesmente em pessoas com quem pode associar-se como com seus iguais (...) mas lhes concede caráter de um pai. Transformando-as em deuses, seguindo nisso, não apenas um protótipo  infantil, mas um protótipo filogenético” (Freud, 1928, P. 48, Parágrafo 3º). Além disso não vê nela a solução para a contenção da agressividade: “É sempre possível unir um considerável número de pessoas no amor, enquanto sobrarem outras para receberem as manifestações da sua agressividade” (Idem, P. 50, Parágrafo 1º). Freud ainda realça o efeito da segregação ideológica-dogmática  encontrada na religião exemplificada na crença cristã: “Quando, outrora, o apóstolo Paulo postulou o amor universal entre os homens como fundamento de sua comunidade cristã, um extrema intolerância por parte da cristandade para com os que permaneceram fora dela tornou-se um consequência inevitável.”.

Outra tentativa de conter a agressividade é o dogma político. Como exemplo temos o comunismo propõe a abolição da propriedade privada e que com isso o homem seria menos hostil: “(...) como as necessidades de todos seriam satisfeitas, ninguém teria razão alguma para encarar outrem como inimigo” (Idem, P. 33, Parágrafo 5º).  Mas Freud nos lembra que a agressividade não foi criada com a propriedade. “Reinou quase sem limites nos tempos primitivos quando a propriedade era ainda muito escassa, e já se apresenta no quarto das crianças, quase antes que a propriedade tenha abandonado a sua forma anal e primária” (Idem, P.51, Parágrafo 1º).

Em suma, Freud nivela a agressividade com os instintos libidinais e vê a repressão destes como uma consequência dos benefícios que obtemos da civilização: “Se a civilização impõe sacrifício tão grande, não apenas à sexualidade do homem, mas também à sua agressividade, podemos compreender melhor porque lhe é difícil ser feliz nessa civilização” (Idem, P. 52, Parágrafo, 2º).  Freud entende que trocamos parte de nossa felicidade por segurança – Não matarás e não desejará a mulher do próximo – resumem a tensão pungente do homem que, por reconhecermos em nós o impulso agressivo e uma força libidinal muito grande, entendemos que é melhor o sacrifício imposto que inclui restringir nossa liberdade instintiva em troca de uma ideal de segurança, pois subentendemos que assim farão nossos semelhantes.

Evidentemente não é fácil aos homens abandonar a satisfação dessa inclinação para a agressão. Sem ela, eles não se sentem confortáveis. A vantagem que um grupo cultural comparativamente pequeno, oferece, concedendo a esse instinto um escoadouro sob a forma de hostilidade contra intrusos, não é nada desprezível” (Idem, P. 45. Parágrafo, 2º ).

Conclusão
            Parece que diversas teorias sobre as origens da agressão mostram como ela pode ser provocada, estimulada e até mesmo laboratorialmente controlada; demonstram outras fontes que influenciam o homem ao ponto de provocar um comportamento hostil, mas parecem fracassar ao  explicar a natureza agressiva presente no ser humano em qualquer tempo ou circunstância.  Sendo assim, elaborar estratégias que visam uma sociedade menos destrutiva, ou seja, menos agressiva, com base em teorias que provam apenas certas influencias sobre o comportamento em determinadas circunstâncias, será apenas manipular essas mesmas influências e não atingem o objetivo a que se propõem.
            Se ideologias políticas, se a ilusão religiosa, nem a manipulação do organismo humano através de controle hormonal, genético ou do neurológico conseguiram até agora gerar uma sociedade mais pacífica, menos neurótica e menos autodestrutiva qual é a solução?
            “O elemento por trás disso tudo, elemento que as pessoas estão tão dispostas a repudiar, é que os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes instintivos  deve-se levar em conta um poderosa quota de agressividade” (Idem, P. 60, Parágrafo 3º ).  
 A psicanálise parece mostrar um caminho, senão simples, seguro quanto suas intenções, para escoar o mal-estar de viver fazendo parte de uma civilização. Pode mostrar as compensações pelas suas opressões que uma vez desvendas podem trazer vantagens. As vantagens são as satisfações substitutivas.
Se a violência é o resultado de um estado de coisas que Freud chama de “pobreza psicológica dos grupos” o psicoterapeuta deve ter como missão fornecer ao paciente maneiras de encontrar essas compensações, tal qual são das artes. Concluo com a citação de Freud sobre as artes:
“(...) há muito tempo, a arte oferece satisfações substitutivas para as mais antigas e mais profundas sentidas renúncias culturais, e, por esse motivo, ela serve, como nenhuma outra coisa, para reconciliar o homem com os sacrifícios que tem de fazer em benefício da civilização” (Freud,1928, P. 15, Parágrafo 3º).


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS





MYERS, David G. Psicologia Social.  Rio de Janeiro: LTC, 2000

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização, Londres: Hogarth Press,1928

FREUD, Sigmund. O Futura de uma Ilusão, Londres: Hogarth Press,1930


NASIO, Juan D. O Prazer de ler Freud. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999 

A Descoberta do Inconsciente Brasileiro

Pressupostos para uma revolução social e cultural no Brasil

    Por: William Fernandes
 




        Quando a máxima Platônica que explica o saber como sendo a transcendência da razão   num discurso universal (Garcia-Rosa)  se tornou a base para a filosofia ocidental, não previa que  as descobertas Freudianas fossem justamente inverter os papeis atribuídos para a razão (Consciente) e provar que é no Inconsciente que reside a subjetividade que define o indivíduo. Assim, podemos dizer que é o desejo que nos torna humanos; “(...) é negando a Natureza, sobrepondo à vida um valor maior do que ela, que o indivíduo se constitui como humano.” (Freud e o Inconsciente, p. 16).  Contudo, não basta  que surja o desejo, é necessário que esse desejo se volte para um objeto não natural e então a pessoa passa de um “sentimento de si” para uma “consciência de si mesmo”.

      É por esse desejo, pela vontade de alcançar valores não naturais que acredito poder haver uma revolução sociocultural no Brasil.

       Historicamente podemos dizer que oque prevaleceu nas colônias de extração que formaram as bases para o que viria ser a nação como a conhecemos hoje, foi vencer a natureza, se adaptar ou destruí-la e dela “extrair”: abrigo, comida, riqueza. Essa situação difere bastante das colônias que se fixaram nas regiões ao norte da América; estavam motivados a recriar seus lares como em suas terras de origem: o desejo era nostálgico, romântico. Era maior do que os desafios naturais que precisavam vencer.

       Uma mudança radical nas motivações que determinam os desejos do brasileiro pode revolucionar toda uma forma de fazer e de querer e,  portando,  mudar  o que se faz e o que se quer. Estimular o criar, mas não só para vender; o trabalho, mas não só para pagar contas; o estudar, mas não só para “passar” ou “pegar melhor cargo”. Não ter medo e nem vergonha de ser Macunaíma  e desenvolver um olhar crítico sobre Zé Carioca e quem sabe então substituir a ilusão da “brasileiridade alegre e brejeira” que valida mitos e estereótipos, pela descoberta de uma identidade  própria e real.


          O Brasil ainda não se curou do trauma de seu nascimento. Ainda quer extrair; consumir; se proteger e atacar, quer “se dar bem” e negar quem é. Vem da mistura da senzala e age com a arrogância do Senhor de Engenho. É possível que com o despertar de desejos subjetivos possa surgir uma nação com mais autoestima, menos corrupta e, portanto, menos violenta.