Pressupostos para uma revolução social e cultural no Brasil
Por: William Fernandes
Quando
a máxima Platônica que explica o saber como sendo a transcendência da
razão num discurso universal
(Garcia-Rosa) se tornou a base para a
filosofia ocidental, não previa que as
descobertas Freudianas fossem justamente inverter os papeis atribuídos para a
razão (Consciente) e provar que é no Inconsciente que reside a subjetividade
que define o indivíduo. Assim, podemos dizer que é o desejo que nos torna
humanos; “(...) é negando a Natureza, sobrepondo à vida um valor maior do que
ela, que o indivíduo se constitui como humano.” (Freud e o Inconsciente, p.
16). Contudo, não basta que surja o desejo, é necessário que esse
desejo se volte para um objeto não natural e então a pessoa passa de um “sentimento
de si” para uma “consciência de si mesmo”.
É
por esse desejo, pela vontade de alcançar valores não naturais que acredito
poder haver uma revolução sociocultural no Brasil.
Historicamente
podemos dizer que oque prevaleceu nas colônias de extração que formaram as
bases para o que viria ser a nação como a conhecemos hoje, foi vencer a
natureza, se adaptar ou destruí-la e dela “extrair”: abrigo, comida, riqueza.
Essa situação difere bastante das colônias que se fixaram nas regiões ao norte
da América; estavam motivados a recriar seus lares como em suas terras de
origem: o desejo era nostálgico, romântico. Era maior do que os desafios
naturais que precisavam vencer.
Uma
mudança radical nas motivações que determinam os desejos do brasileiro pode
revolucionar toda uma forma de fazer e de querer e, portando, mudar o
que se faz e o que se quer. Estimular o criar, mas não só para vender; o
trabalho, mas não só para pagar contas; o estudar, mas não só para “passar” ou
“pegar melhor cargo”. Não ter medo e nem vergonha de ser Macunaíma e desenvolver um olhar crítico sobre Zé
Carioca e quem sabe então substituir a ilusão da “brasileiridade alegre e brejeira”
que valida mitos e estereótipos, pela descoberta de uma identidade própria e real.
O
Brasil ainda não se curou do trauma de seu nascimento. Ainda quer extrair;
consumir; se proteger e atacar, quer “se dar bem” e negar quem é. Vem da
mistura da senzala e age com a arrogância do Senhor de Engenho. É possível que
com o despertar de desejos subjetivos possa surgir uma nação com mais autoestima,
menos corrupta e, portanto, menos violenta.

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