terça-feira, 10 de maio de 2016

O QUE SIGNIFICA ISSO QUE FALO QUANDO FALO?

     Imagine se nós possuíssemos dentro de nós imagens, memórias, sensações e impulsos sobre os quais não temos sequer a menor ideia de que existam ou o que sejam – vamos chamar a isso de vazio; não possuem nome. Imagine agora se fosse possível que ao ouvirmos uma palavra, uma frase, um comentário totalmente desconectado de nossos problemas, interesses ou atenção algum vazio fosse trazido à vida, ganhasse um nome e, de forma inesperada, a gente fosse totalmente surpreendido por uma nova ideia, sensação, uma imagem com nome e forma que antes não existia; ou achávamos que não existia.


        Agora imagine se quando trouxéssemos um vazio à vida por lhe darmos nome (falarmos) invocássemos um novo vazio que estaria prestes a ganhar nome, forma e vida.

       Bem, possuímos esses vazios e é exatamente assim que eles ganham vida nos surpreendendo e nos deixando, ás vezes, confusos. Os místicos querem achar que foi premunição, profecia, visita do além; os da moda dizem que são suas intuições amadurecendo ou está morando numa casa com um número certo, ou errado, de quartos ou a posição dos atros estão favoráveis ou não.

     Piadas à parte, Lacan foi o maior estudioso dessa estrutura inconsciente e, graças a ele, a psicanálise é hoje um instrumento valioso para a saúde psíquica do homem do século XXI.

      Segundo Lacan, esses “repentes” surpreendentes não apenas despertam novos vazios em nós, mas também nos outros; assim como aconteceu a primeira vez conosco. Essa estrutura de repetições e novas conexões se estrutura como uma linguagem. Não é à toa que somos constantemente assobrados por sensações e lembranças que parecem estranhas à nós. 

     Isso ajuda a por terra um monte de bobagens que se fala sobre terapias e saúde mental. Seguem algumas delas:

  - Essa ou aquela cor te ajuda e essa e aquela outra não são boas para você.

   As impressões quanto a cores na área da psique humana (não da calorimetria), assim como qualquer outra forma de estímulo, faz parte de um histórico individual no qual seu significado, seu impacto e sua simbologia só poderia ser descrita pelo próprio indivíduo.

 - Sonhar com isso: significa aquilo.


    O sonho é uma linguagem própria de quem sonha. Seu significado só poderia ser referido por ele próprio. Água, nesse contexto, não significa nada. Só pode ter algum significado  na estrutura  inconsciente de quem sonha. O que seria água para essa pessoa especificamente? Mas toda interpretação de sonho que não entende essa premissa usa as referências de quem interpreta: água é viagem (pra mim, então deve ser pra você), água é morte (no livro de interpretação de sonhos), água é vida (na holística) ...  mas não fazem a menor ideia do que é água para quem sonhou. Freud entendia isso e desenvolveu trabalhos maravilhosos sobre o “trabalho do sonho”.

- Se a pessoa usou essa ou aquela palavra ao falar de sí, significa que ela é isso ou aquilo.


      Essa é uma mazela muito empregada em recursos humanos e, infelizmente validada pela psicologia. João disse “Meu nome é João e eu busco mais conhecimento”. Oh! Ele disse “busco”, então... ele é inseguro quanto ao que sabe ou  isso... ou aquilo, então a vaga vai para Maria que disse “Eu sou Maria e tenho conhecimento”. Ela usou a palavra “tenho”. Achar que existe uma tabelinha com significados das palavras no inconsciente de todos uniformemente é tamanha ingenuidade que chega próximo da crença em horóscopo e numerologia. O que de fato  ela quer dizer quando disse o que disse? Mesmo que essa análise fosse do interesse do RH, não é uma descoberta fácil de ser feita e, com certeza, não é uma descoberta que se faz com tabelinhas.

- A função do analista é diminuir o sofrimento do paciente dando-lhe opções de soluções.


     Devido a necessidade que a psicologia teve ao longo de sua história em se firmar como uma ciência, ela se aproximou das ciências exatas: homens de branco em laboratórios fazendo descobertas que mudavam o rumo do mundo. Aì o psicólogo criou um clichê de si mesmo que é o do sujeito que se distancia de seus obejtos de estudo/tratamento como um físico se distancia de um pedaço de pedra. "O homem tem dificuldade em se desenvolver..etc..etc.. mas eu estou aqui, falando sobre o homem como se eu não fosse um". O analista tem lá ele mesmo seus vazios despertados pelos "repentes" do paciente. Ele não está em posição de determinar o que é bom ou ruim e nem de ver através do seu paciente. Acreditava-se no passado (por uma má compreensão dos ensinamentos de Freud pelas escolas estadunidenses de psicanálise) que seria essa a função do psicanalista: ouvir o paciente e lhe instruir sobre o que fazer. A função do analista (exceto em casos psicóticos), parafraseando Lacan, é mostrar que não tem  jeito. Que as frustrações, que a sensação de dor, sofrimento e infelicidade nos acompanharão sempre. Cabe ao analista possibilitar que o paciente possa ele mesmo encontrar meios de dizer “Ok. Nunca vou ter o que desejo, mas posso, se me esforçar,  ter aquilo que quero e de que preciso” e então entender, por si próprio, que parte do viver é suportar um certo nível de ansiedade. Encontrar suas próprias soluções para isso; ser o analista de sí mesmo.

- Se confidenciar, se abrir, com alguém tem o valor de uma psicoterapia.


     De fato, chorar as lamúria no ombro de um amigo no momento certo pode ser terapêutico, mas esta longe de ser um tratamento. “Um diálogo casual , um filme, um limite colocado pelos pais podem ser terapêuticos quando acontecem na hora certa com a pessoa disponível para compreendê-los. Estes acontecimentos não podem ser denominados psicoterapia, porque a relação entre as pessoas envolvidas não está combinada para tanto, não há enquadre instituído.” (HEGENBERG, Mauro. Psicoterapia Breve, Casapsi, 2010).


     Quando a ansiedade e mal-estar, independente da razão que atribuímos em primeira instância, nos causa sofrimento continuado, não buscamos tabelas, números, semântica, cores ou qualquer tipo de receita. É hora de transferir e atualizar os vazios, acorda-los, dar-lhes conteúdo e montar o próprio quebra-cabeça da vida que só, única e exclusivamente, a gente pode ver o sentido. O psicanalista é o profissional capacitado para isso.


Referências:

QUINET, Antônio. As 4+1 condições da análise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009

HEGENBERG, Mauro. Psicoterapia Breve, Casapsi, 2010

JUAN-DAVID, Nasio. Como trabalha o psicanalista, Rio de Janeiro, Jorge Zahar,

1999.

LACAN, Jacques. O Simbólico, o imaginário e o Real,Rio de Janeiro, Jorge Zahar,

2005.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

INVEJA, GRATIDÃO E ANTROPOFAGIA




 
          A  inveja, se adequadamente observada e analisada, pode revelar  grande parte dos desejos e fantasias antropofágicas de um indivíduo.

         Não confunda com ciúmes.  Este  está na relação que temos com objetos dos quais queremos nos apropriar, queremos crer que pertencem somente a nós. A inveja é a inflicção de nossa ansiedade em objetos que nos atormentam por serem, em nossa fantasia, bons demais e portanto, queremos destruir, devorar, ingerir, incorporar.

          A natureza antropofágica da inveja acentua a dificuldade que temos em detectar, reconhecer e admitir em nós os objetos de nossa inveja.

         Melanie Klein, psicanalista inglesa que, através de seus estudos sobre a natureza esquizo-paranoide da criança em seus primeiros meses, traduz a inveja como a incapacidade de entender a dualidade dos objetos. Por exemplo, quando criancinhas, vemos o seio da mãe como um objeto parcial, ou seja, não há mãe, há o seio. Esse seio, ou par de seios, tanto nutrem e confortam quando estão ao alcance do bebê, como  frustram e atormentam quando o bebê precisa dele e ele não está lá. Essas alternâncias de aparições e desaparições  nutrem as fantasias do bebê  e o enchem de ansiedade.  Ele divide esse objeto em dois. Um ele ama o outro ele odeia.  Mas o que ele ama ele quer  também devorar, literalmente;  engolir, morder, pois está imbuído de inveja desse objeto mágico que pode tudo e ele, o bebê, não pode nada e depende da generosidade do mundo de adultos ao seu redor o qual ele não consegue compreender nada.


          Medo do seio que odiou e pode voltar para o atormentar, anseio por um seio que some quando ele mais precisa constituem, a grosso modo, as características esquizofrênicas e paranoides filogeneticamente presentes em todos nós. O ID (Freud) ou memória arcaica (Klein). Mas  se criado num ambiente no qual consiga reduzir essa ansiedade, a criança  pode entender, e quase sempre entende,  que não existe seio bom ou seio mau, existe apenas a mãe (ou aquele que assume essa posição). Ele entende que  a mãe tanto lhe estimula os sentimentos de afeto como o ódio e o desejo sádico de destruição. Ele se deprime e sofre como luto daquele objeto única e exclusivamente bom. Ele não existe. Não há prazer absoluto, não alegria plena nem uma mãe unicamente boa. O mundo é um lugar bem mais complexo do que imaginava e as relações com as pessoas não são baseadas simplesmente no que ele quer e no momento que ele quer. Esse luto, como qualquer luto, permite a reconstrução do objeto sepultado (por isso quando as pessoas morrem os demais tendem a realçar suas virtudes), ao mesmo tempo em que reconstrói a si mesmo. A essa passagem Klein chama de “posição depressiva”.

          Bem, isso ocorre se criado em um ambiente onde encontre vias para desviar o sadismo e a inveja. Caso não consiga passar para a “posição depressiva”, essa criança continuará sádica e invejosa. Um verdadeiro canibal de tudo o que deseja e repudia. Poderá se tornar um adulto que, entre outros sérios distúrbios, quer destruir tudo aquilo que não pode ter, compreender ou que, simplesmente, o desaponte persebendo-os como um  “seio mau” que deve ser eliminado, mas também sugado, absorvido.

          Isso pode explicar a forma incoerente com que as amizades, só para citar um exemplo, acabam. Basta que uma das partes da relação não consiga lidar com a ansiedade causada pela aparição de características desagradáveis na outra, para que a amizade acabe. Essa parte, a que cliva o mundo em bom e mau, não consegue entender que todos os objetos são bons e maus e que não podemos descarta-los quando não nos servem mais, ou quando outro mais atraente está ao alcance.

       A inveja, mesmo na criança que passou da posição ezquizo-paranóide e se tornou um adulto psiquicamente saudável, retorna como vestígios de uma fase primitiva da qual precisa, como  nos seus primeiros dias de vida, aprender a vencer, superar. Superar como?  Aprendendo  a suportar um certo nível de ansiedade sem direcionar sua ira imediatamente contra o objeto que lhe atormenta (amigo, companheiro de trabalho, esposa, marido, filho, grupo com opniões diferentes). Por isso Klein chama a esse processo de “posição” e não “fase”, como fazia Freud, pois entende que não se trata de uma fase do desenvolvimento biológico, mas um estado que pode voltar a qualquer momento na vida do indivíduo.

         E a gratidão? É o oposto da inveja.

         Quem sabe se fosse grata a esposa entenderia que o que lhe frustra e irrita no marido é exatamente aquilo que ela mais admira, gostaria de ser, ter.... o amigo não precisaria cortar a relação com o outro se, cheio de gratidão, pudesse  apreciar as  virtudes do outro  – mesmo aquelas que o fazem , em suas fantasias paranoides, se sentir inferior ou menosprezado – e suportar certa dose de ansiedade com as falhas e sentimentos desagradáveis que o outro lhe causa.

         Importante lembrar que no ambiente escolar tende a ser o local onde se recriam as fantasias sádicas não superados no lar. Não é segredo que quanto menos saudável psiq
uicamente for o aluno mais se voltará sadicamente contra o professor. E, acentuado pelas bases antropofágicas dessas fantasias, quanto melhor for o professor, maior será a voracidade desse ataque. Esse cenário pode se r reconstruido, nos grupos sociais, ambiente de trabalho, casamento e relação com os filhos. A psicanálise constitui o instrumento mais eficaz no tratamento de disturbios dessa natureza.

       Se a inveja revela as fantasias sádicas e antropofágicas, podemos  ouvir, de agora em diante, com bastante suspeita ao próximo relato que alguém vier fazer sobre o  porque foi “obrigado” a cortar (fatiar, preparar para o consumo, triturar) essa ou aquela pessoa de sua vida. E depois, não se esqueça, seja grato pelo relato.

    Um grupo que devora seu governo imbuidos da imaturidade que cega pela ansiedade e dá espaço para a manipulação, sofrerá com o enorme vazio que vem após a digestão: nova fome, mas sem mais nada de apetitoso para devorar. Devora-se a si próprio. 


Fontes:

NASIO, Juan D. Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto, Lacan.  Rio de Janeiro: Zahar, 1995

ROUDINESCO, Elisabeth. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998


ALVAREZ, Carlos M. Conversas Sobre Melanie Klein. www.youtube.com/watch?v=B-tKPqDfCvo : 2013