Imagine se nós possuíssemos dentro de nós imagens, memórias,
sensações e impulsos sobre os quais não temos sequer a menor ideia de que
existam ou o que sejam – vamos chamar a isso de vazio; não possuem nome.
Imagine agora se fosse possível que ao ouvirmos uma palavra, uma frase, um
comentário totalmente desconectado de nossos problemas, interesses ou atenção
algum vazio fosse trazido à vida, ganhasse um nome e, de forma
inesperada, a gente fosse totalmente surpreendido por uma nova ideia, sensação,
uma imagem com nome e forma que antes não existia; ou achávamos que não
existia.Agora imagine se quando trouxéssemos um vazio à vida por lhe darmos nome (falarmos) invocássemos um novo vazio que estaria prestes a ganhar nome, forma e vida.
Bem, possuímos esses vazios e é exatamente assim que eles
ganham vida nos surpreendendo e nos deixando, ás vezes, confusos. Os místicos querem achar que foi premunição, profecia, visita do além; os da moda dizem que são suas intuições amadurecendo ou está morando numa casa com um número certo, ou errado, de quartos ou a posição dos atros estão favoráveis ou não.
Piadas à parte, Lacan foi o maior estudioso dessa estrutura
inconsciente e, graças a ele, a psicanálise é hoje um instrumento valioso para
a saúde psíquica do homem do século XXI.
Segundo Lacan, esses “repentes” surpreendentes não apenas despertam
novos vazios em nós, mas também nos outros; assim como aconteceu a primeira vez
conosco. Essa estrutura de repetições e novas conexões se estrutura como uma
linguagem. Não é à toa que somos constantemente assobrados por sensações e lembranças que parecem estranhas à nós.
Isso ajuda a por terra um monte de bobagens que se fala sobre terapias
e saúde mental. Seguem algumas delas:
- Essa ou aquela cor te ajuda e essa e aquela outra não são boas para você.
As impressões
quanto a cores na área da psique humana (não da calorimetria), assim como qualquer outra forma de estímulo, faz parte de um
histórico individual no qual seu significado, seu impacto e sua simbologia só
poderia ser descrita pelo próprio indivíduo.
- Sonhar com isso: significa aquilo.
O sonho é uma
linguagem própria de quem sonha. Seu significado só poderia ser referido por ele
próprio. Água, nesse contexto, não significa nada. Só pode ter algum significado na estrutura
inconsciente de quem sonha. O que seria água para essa pessoa
especificamente? Mas toda interpretação de sonho que não entende essa premissa
usa as referências de quem interpreta: água é viagem (pra mim, então deve ser pra você), água é morte (no livro de interpretação de sonhos), água é
vida (na holística) ... mas não fazem a menor ideia do
que é água para quem sonhou. Freud entendia isso e desenvolveu trabalhos
maravilhosos sobre o “trabalho do sonho”.- Se a pessoa usou essa ou aquela palavra ao falar de sí, significa que ela é isso ou aquilo.
Essa é uma mazela muito empregada em recursos humanos e,
infelizmente validada pela psicologia. João disse “Meu nome é João e eu busco
mais conhecimento”. Oh! Ele disse “busco”, então... ele é inseguro quanto ao
que sabe ou isso... ou aquilo, então a vaga vai para Maria que disse “Eu sou Maria e tenho
conhecimento”. Ela usou a palavra “tenho”. Achar que existe uma tabelinha com
significados das palavras no inconsciente de todos uniformemente é tamanha
ingenuidade que chega próximo da crença em horóscopo e numerologia. O que de fato ela
quer dizer quando disse o que disse? Mesmo que essa análise fosse do interesse do RH, não é uma descoberta fácil de ser feita e, com certeza, não é uma descoberta que se faz com
tabelinhas.- A função do analista é diminuir o sofrimento do paciente dando-lhe opções de soluções.
Devido a necessidade que a psicologia teve ao longo de sua história em se firmar como uma ciência, ela se aproximou das ciências exatas: homens de branco em laboratórios fazendo descobertas que mudavam o rumo do mundo. Aì o psicólogo criou um clichê de si mesmo que é o do sujeito que se distancia de seus obejtos de estudo/tratamento como um físico se distancia de um pedaço de pedra. "O homem tem dificuldade em se desenvolver..etc..etc.. mas eu estou aqui, falando sobre o homem como se eu não fosse um". O analista tem lá ele mesmo seus vazios despertados pelos "repentes" do paciente. Ele não está em posição de determinar o que é bom ou
ruim e nem de ver através do seu paciente. Acreditava-se no passado (por uma má compreensão dos ensinamentos de
Freud pelas escolas estadunidenses de psicanálise) que seria essa a função do psicanalista:
ouvir o paciente e lhe instruir sobre o que fazer. A função do analista (exceto
em casos psicóticos), parafraseando Lacan, é mostrar que não tem jeito. Que as frustrações, que a sensação de
dor, sofrimento e infelicidade nos acompanharão sempre. Cabe ao analista
possibilitar que o paciente possa ele mesmo encontrar meios de dizer “Ok. Nunca
vou ter o que desejo, mas posso, se me esforçar, ter aquilo que quero e de que preciso” e então entender, por si próprio, que parte do viver é suportar um certo
nível de ansiedade. Encontrar suas próprias soluções para isso; ser o analista de sí mesmo.
- Se confidenciar, se abrir, com alguém tem o valor de uma psicoterapia.
De fato, chorar as lamúria no ombro de um amigo no momento
certo pode ser terapêutico, mas esta longe de ser um tratamento. “Um diálogo casual , um filme, um limite
colocado pelos pais podem ser terapêuticos quando acontecem na hora certa com a
pessoa disponível para compreendê-los. Estes acontecimentos não podem ser
denominados psicoterapia, porque a relação entre as pessoas envolvidas não está
combinada para tanto, não há enquadre instituído.” (HEGENBERG, Mauro.
Psicoterapia Breve, Casapsi, 2010).
Quando a ansiedade e mal-estar, independente da razão que atribuímos em primeira instância, nos causa sofrimento continuado, não buscamos tabelas, números, semântica, cores ou qualquer tipo de receita. É hora de transferir e atualizar os vazios, acorda-los, dar-lhes conteúdo e montar o próprio quebra-cabeça da vida que só, única e exclusivamente, a gente pode ver o sentido. O psicanalista é o profissional capacitado para isso.
Referências:
QUINET, Antônio. As 4+1 condições da análise, Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2009
HEGENBERG, Mauro. Psicoterapia Breve, Casapsi, 2010
JUAN-DAVID, Nasio. Como trabalha o psicanalista, Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
1999.
LACAN, Jacques. O Simbólico, o imaginário e o Real,Rio de Janeiro, Jorge Zahar,
2005.

Nenhum comentário:
Postar um comentário