A inveja, se adequadamente observada e
analisada, pode revelar grande parte dos
desejos e fantasias antropofágicas de um indivíduo.
Não confunda com
ciúmes. Este está na relação que temos com objetos dos
quais queremos nos apropriar, queremos crer que pertencem somente a nós. A
inveja é a inflicção de nossa ansiedade em objetos que nos atormentam por
serem, em nossa fantasia, bons demais e portanto, queremos destruir, devorar,
ingerir, incorporar.
A natureza
antropofágica da inveja acentua a dificuldade que temos em detectar, reconhecer
e admitir em nós os objetos de nossa inveja.
Melanie Klein,
psicanalista inglesa que, através de seus estudos sobre a natureza
esquizo-paranoide da criança em seus primeiros meses, traduz a inveja como a incapacidade
de entender a dualidade dos objetos. Por exemplo, quando criancinhas, vemos o
seio da mãe como um objeto parcial, ou seja, não há mãe, há o seio. Esse seio,
ou par de seios, tanto nutrem e confortam quando estão ao alcance do bebê, como
frustram e atormentam quando o bebê
precisa dele e ele não está lá. Essas alternâncias de aparições e desaparições nutrem as fantasias do bebê e o enchem de ansiedade. Ele divide esse objeto em dois. Um ele ama o
outro ele odeia. Mas o que ele ama ele
quer também devorar, literalmente; engolir, morder, pois está imbuído de inveja
desse objeto mágico que pode tudo e ele, o bebê, não pode nada e depende da
generosidade do mundo de adultos ao seu redor o qual ele não consegue
compreender nada.
Medo do seio que odiou
e pode voltar para o atormentar, anseio por um seio que some quando ele mais
precisa constituem, a grosso modo, as características esquizofrênicas e paranoides
filogeneticamente presentes em todos nós. O ID (Freud) ou memória arcaica
(Klein). Mas se criado num ambiente no
qual consiga reduzir essa ansiedade, a criança pode entender, e quase sempre entende, que não existe seio bom ou seio mau, existe
apenas a mãe (ou aquele que assume essa posição). Ele entende que a mãe tanto lhe estimula os sentimentos de afeto
como o ódio e o desejo sádico de destruição. Ele se deprime e sofre como luto daquele
objeto única e exclusivamente bom. Ele não existe. Não há prazer absoluto, não alegria plena nem uma mãe unicamente boa. O mundo é um lugar bem mais complexo do que imaginava e as relações com as pessoas não são baseadas simplesmente no que ele quer e no momento que ele quer. Esse luto, como qualquer luto,
permite a reconstrução do objeto sepultado (por isso quando as pessoas morrem os demais tendem a realçar suas virtudes), ao mesmo tempo em que reconstrói a si
mesmo. A essa passagem Klein chama de “posição depressiva”.
Bem, isso ocorre se criado em
um ambiente onde encontre vias para desviar o sadismo e a inveja. Caso não consiga
passar para a “posição depressiva”, essa criança continuará sádica e invejosa. Um verdadeiro canibal de tudo o que deseja e repudia. Poderá se tornar um adulto que, entre outros sérios distúrbios, quer destruir
tudo aquilo que não pode ter, compreender ou que, simplesmente, o desaponte persebendo-os como um “seio mau”
que deve ser eliminado, mas também sugado, absorvido.
Isso pode explicar a
forma incoerente com que as amizades, só para citar um exemplo, acabam. Basta
que uma das partes da relação não consiga lidar com a ansiedade causada pela
aparição de características desagradáveis na outra, para que a amizade acabe.
Essa parte, a que cliva o mundo em bom e mau, não consegue entender que todos
os objetos são bons e maus e que não podemos descarta-los quando não nos servem
mais, ou quando outro mais atraente está ao alcance.
A inveja, mesmo na criança
que passou da posição ezquizo-paranóide e se tornou um adulto psiquicamente saudável,
retorna como vestígios de uma fase primitiva da qual precisa, como nos seus primeiros dias de vida, aprender a vencer,
superar. Superar como? Aprendendo a suportar um certo nível de ansiedade sem
direcionar sua ira imediatamente contra o objeto que lhe atormenta (amigo, companheiro de trabalho, esposa, marido, filho, grupo com opniões diferentes). Por isso
Klein chama a esse processo de “posição” e não “fase”, como fazia Freud, pois
entende que não se trata de uma fase do desenvolvimento biológico, mas um
estado que pode voltar a qualquer momento na vida do indivíduo.
E a gratidão? É o
oposto da inveja.
Quem sabe se fosse
grata a esposa entenderia que o que lhe frustra e irrita no marido é exatamente
aquilo que ela mais admira, gostaria de ser, ter.... o amigo não precisaria
cortar a relação com o outro se, cheio de gratidão, pudesse apreciar as virtudes do outro – mesmo aquelas que o fazem , em suas
fantasias paranoides, se sentir inferior ou menosprezado – e suportar certa
dose de ansiedade com as falhas e sentimentos desagradáveis que o outro lhe
causa.
Importante lembrar que no ambiente escolar tende a ser o local onde se recriam as fantasias sádicas não superados no lar. Não é segredo que quanto menos saudável psiq
Se a inveja revela as
fantasias sádicas e antropofágicas, podemos
ouvir, de agora em diante, com bastante suspeita ao próximo relato que alguém vier fazer sobre o porque
foi “obrigado” a cortar (fatiar, preparar para o consumo, triturar) essa ou
aquela pessoa de sua vida. E depois, não se esqueça, seja grato pelo relato.
Um grupo que devora seu governo imbuidos da imaturidade que cega pela ansiedade e dá espaço para a manipulação, sofrerá com o enorme vazio que vem após a digestão: nova fome, mas sem mais nada de apetitoso para devorar. Devora-se a si próprio.
Um grupo que devora seu governo imbuidos da imaturidade que cega pela ansiedade e dá espaço para a manipulação, sofrerá com o enorme vazio que vem após a digestão: nova fome, mas sem mais nada de apetitoso para devorar. Devora-se a si próprio.
Fontes:
NASIO, Juan D. Introdução às obras de Freud, Ferenczi,
Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto, Lacan.
Rio de Janeiro: Zahar, 1995
ROUDINESCO, Elisabeth. Dicionário de Psicanálise. Rio de
Janeiro: Zahar, 1998

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