sexta-feira, 6 de maio de 2016

INVEJA, GRATIDÃO E ANTROPOFAGIA




 
          A  inveja, se adequadamente observada e analisada, pode revelar  grande parte dos desejos e fantasias antropofágicas de um indivíduo.

         Não confunda com ciúmes.  Este  está na relação que temos com objetos dos quais queremos nos apropriar, queremos crer que pertencem somente a nós. A inveja é a inflicção de nossa ansiedade em objetos que nos atormentam por serem, em nossa fantasia, bons demais e portanto, queremos destruir, devorar, ingerir, incorporar.

          A natureza antropofágica da inveja acentua a dificuldade que temos em detectar, reconhecer e admitir em nós os objetos de nossa inveja.

         Melanie Klein, psicanalista inglesa que, através de seus estudos sobre a natureza esquizo-paranoide da criança em seus primeiros meses, traduz a inveja como a incapacidade de entender a dualidade dos objetos. Por exemplo, quando criancinhas, vemos o seio da mãe como um objeto parcial, ou seja, não há mãe, há o seio. Esse seio, ou par de seios, tanto nutrem e confortam quando estão ao alcance do bebê, como  frustram e atormentam quando o bebê precisa dele e ele não está lá. Essas alternâncias de aparições e desaparições  nutrem as fantasias do bebê  e o enchem de ansiedade.  Ele divide esse objeto em dois. Um ele ama o outro ele odeia.  Mas o que ele ama ele quer  também devorar, literalmente;  engolir, morder, pois está imbuído de inveja desse objeto mágico que pode tudo e ele, o bebê, não pode nada e depende da generosidade do mundo de adultos ao seu redor o qual ele não consegue compreender nada.


          Medo do seio que odiou e pode voltar para o atormentar, anseio por um seio que some quando ele mais precisa constituem, a grosso modo, as características esquizofrênicas e paranoides filogeneticamente presentes em todos nós. O ID (Freud) ou memória arcaica (Klein). Mas  se criado num ambiente no qual consiga reduzir essa ansiedade, a criança  pode entender, e quase sempre entende,  que não existe seio bom ou seio mau, existe apenas a mãe (ou aquele que assume essa posição). Ele entende que  a mãe tanto lhe estimula os sentimentos de afeto como o ódio e o desejo sádico de destruição. Ele se deprime e sofre como luto daquele objeto única e exclusivamente bom. Ele não existe. Não há prazer absoluto, não alegria plena nem uma mãe unicamente boa. O mundo é um lugar bem mais complexo do que imaginava e as relações com as pessoas não são baseadas simplesmente no que ele quer e no momento que ele quer. Esse luto, como qualquer luto, permite a reconstrução do objeto sepultado (por isso quando as pessoas morrem os demais tendem a realçar suas virtudes), ao mesmo tempo em que reconstrói a si mesmo. A essa passagem Klein chama de “posição depressiva”.

          Bem, isso ocorre se criado em um ambiente onde encontre vias para desviar o sadismo e a inveja. Caso não consiga passar para a “posição depressiva”, essa criança continuará sádica e invejosa. Um verdadeiro canibal de tudo o que deseja e repudia. Poderá se tornar um adulto que, entre outros sérios distúrbios, quer destruir tudo aquilo que não pode ter, compreender ou que, simplesmente, o desaponte persebendo-os como um  “seio mau” que deve ser eliminado, mas também sugado, absorvido.

          Isso pode explicar a forma incoerente com que as amizades, só para citar um exemplo, acabam. Basta que uma das partes da relação não consiga lidar com a ansiedade causada pela aparição de características desagradáveis na outra, para que a amizade acabe. Essa parte, a que cliva o mundo em bom e mau, não consegue entender que todos os objetos são bons e maus e que não podemos descarta-los quando não nos servem mais, ou quando outro mais atraente está ao alcance.

       A inveja, mesmo na criança que passou da posição ezquizo-paranóide e se tornou um adulto psiquicamente saudável, retorna como vestígios de uma fase primitiva da qual precisa, como  nos seus primeiros dias de vida, aprender a vencer, superar. Superar como?  Aprendendo  a suportar um certo nível de ansiedade sem direcionar sua ira imediatamente contra o objeto que lhe atormenta (amigo, companheiro de trabalho, esposa, marido, filho, grupo com opniões diferentes). Por isso Klein chama a esse processo de “posição” e não “fase”, como fazia Freud, pois entende que não se trata de uma fase do desenvolvimento biológico, mas um estado que pode voltar a qualquer momento na vida do indivíduo.

         E a gratidão? É o oposto da inveja.

         Quem sabe se fosse grata a esposa entenderia que o que lhe frustra e irrita no marido é exatamente aquilo que ela mais admira, gostaria de ser, ter.... o amigo não precisaria cortar a relação com o outro se, cheio de gratidão, pudesse  apreciar as  virtudes do outro  – mesmo aquelas que o fazem , em suas fantasias paranoides, se sentir inferior ou menosprezado – e suportar certa dose de ansiedade com as falhas e sentimentos desagradáveis que o outro lhe causa.

         Importante lembrar que no ambiente escolar tende a ser o local onde se recriam as fantasias sádicas não superados no lar. Não é segredo que quanto menos saudável psiq
uicamente for o aluno mais se voltará sadicamente contra o professor. E, acentuado pelas bases antropofágicas dessas fantasias, quanto melhor for o professor, maior será a voracidade desse ataque. Esse cenário pode se r reconstruido, nos grupos sociais, ambiente de trabalho, casamento e relação com os filhos. A psicanálise constitui o instrumento mais eficaz no tratamento de disturbios dessa natureza.

       Se a inveja revela as fantasias sádicas e antropofágicas, podemos  ouvir, de agora em diante, com bastante suspeita ao próximo relato que alguém vier fazer sobre o  porque foi “obrigado” a cortar (fatiar, preparar para o consumo, triturar) essa ou aquela pessoa de sua vida. E depois, não se esqueça, seja grato pelo relato.

    Um grupo que devora seu governo imbuidos da imaturidade que cega pela ansiedade e dá espaço para a manipulação, sofrerá com o enorme vazio que vem após a digestão: nova fome, mas sem mais nada de apetitoso para devorar. Devora-se a si próprio. 


Fontes:

NASIO, Juan D. Introdução às obras de Freud, Ferenczi, Groddeck, Klein, Winnicott, Dolto, Lacan.  Rio de Janeiro: Zahar, 1995

ROUDINESCO, Elisabeth. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998


ALVAREZ, Carlos M. Conversas Sobre Melanie Klein. www.youtube.com/watch?v=B-tKPqDfCvo : 2013 

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